Entrevista sobre o CD Alma Caipira de Claudio Lacerda

 

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Entrevista Alma Caipira

1) Por que o nome Alma Caipira?

Cláudio: Porque é simples e traduz o fato de eu ser paulistano, mas me sentir com a alma caipira. Vivi muitos anos no interior trabalhando diretamente com o povo da roça. Isso me aproximou muito dos costumes e do jeitão deles.

2) Qual a inovação e o maior desafio desse trabalho?

Cláudio: Penso ser natural os artistas procurarem reviver o passado que os influencia, para se conhecerem melhor. Foi o que aconteceu neste caso. O maior mérito deste CD é trazer ao conhecimento do público algumas músicas de grandes compositores, que ainda só tinham a gravação original em 78 rpm. Canções como “Encruzilhada” de Angelino de Oliveira, gravada por Paraguassú, ainda com o pseudônimo de Maracajá, em 1930. Trata-se do mesmo autor e primeiro intérprete da famosíssima “Tristezas de Jeca”, canção que, talvez, seja a mais importante e divulgada de toda a história da música caipira. Hoje, porém, pouca gente no Brasil sabe quem foi Angelino e menos ainda se conhece o restante de seu repertório, que contém dezenas de canções maravilhosas. O maior desafio foi, pelas descobertas que fomos fazendo, a seleção das músicas que comporiam o repertório do CD. São tantas e tão boas que muita coisa boa ficou de fora e ainda não pudemos homenagear todos os compositores de relevo do gênero, que também são muitos.

3) Quantos e quais compositores foram homenageados?

Cláudio: Homenageamos 22 compositores em 16 canções. O mais antigo deles, o Cornélio Pires, foi responsável pela primeira gravação em disco das modas e causos caipiras, feitas em 1929, pelas famosas bolachas de selo vermelho lançadas por meio da Columbia, mas bancadas por ele por conta e risco, porque a gravadora achou que aquele gênero de música não venderia. Ele esgotou o estoque rapidamente e inaugurou um filão que acabou se mostrando um dos mais lucrativos da musica brasileira. O compositor de geração mais recente entre os homenageados é o Tião Carreiro, o criador do pagode-de-viola e, certamente, o violeiro mais cultuado no Brasil. Além deles temos ainda Ado Benatti, Anacleto Rosas Jr., Angelino de Oliveira, Arlindo Pinto, Capitão Furtado – este outro pioneiro, sobrinho do Cornélio Pires –, o Elpídio dos Santos, João Pacífico, Lourival dos Santos, Mário Zan, Moacyr dos Santos, Nhô Pai, Nonô Basílio, Palmeira, Piraci, Raul Torres, Serrinha, Sulino, Teddy Vieira, Tonico e Zé Fortuna. Infelizmente todos falecidos.

4) Quais são as suas influências e referências musicais?

Cláudio: São muitas. Dércio Marques, Elomar, Renato Teixeira, Milton Nascimento, Almir Sater e amigos como Zé Paulo Medeiros, Oswaldinho Viana, Nilson Ribeiro, entre outros, e é claro, Tião Carreiro, Zé Fortuna, Elpídio dos Santos, para citar alguns dos compositores caipiras.

5) Quando você definiu que iria se dedicar à música regional?

Cláudio: Desde menino, com a família e com os amigos, o que se cantava era música caipira. A gente cantava “Chico Mineiro”, “Serafim e seus filhos”, “Mágoa e Boiadeiro”, coisas antigas de Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco e muitos outros. Fui crescendo com isso e, apesar de ser paulistano, foi muito presente essa influência da música caipira. Com 17 anos, fui estudar zootecnia em Botucatu, interior de São Paulo, e lá era só ligar o rádio pra ouvir música caipira, sertaneja. Historicamente, é uma região muito rica em música regional e caipira. Compositores importantes para o gênero, como o Angelino de Oliveira, o Raul Torres e o Serrinha, eram de lá. E logo no começo da faculdade conheci melhor o trabalho do Renato Teixeira, do Elomar, do Almir Sater e fiquei fã deles todos. Quando decidi me tornar músico profissional, a música regional foi uma opção muito natural...

6) Você tem músicos na família?

Cláudio: Sim e não. Tem muita gente que toca e canta, mas não encaram como profissão não. Meu irmão me ensinou a tocar violão meio obrigado, porque meu pai o pagava para me dar aula. Na verdade ele me deu uma aula só e falou: “Vou te ensinar a ler estas revistas, fazer essas notas, mas você vai falar pro papai que eu continuo te ensinando, senão você apanha toda semana”. Então foi assim que eu aprendi. Só depois de muito tempo é que fui aprender teoria.

7) E profissionalmente, quando você começou a tocar?

Cláudio: Quando fui para a faculdade, comecei a tocar em barzinhos pra ganhar um dinheirinho a mais. Apesar de ser uma faculdade do Estado, eu não tinha muitas regalias. Era tudo contadinho, a comida, o aluguel, enfim eu tocava para me sustentar. Durante a semana eu tocava pro pessoal da faculdade e nos finais de semana eu tocava pro povo da cidade.

8) Até então você não tinha decidido por uma carreira artística?

Cláudio: Só optei pela carreira de músico quando vi que a zootecnia não estava tão legal quanto deveria estar. Fui ver uma palestra de um consultor americano, lá em Passos, Minas, e me lembro de uma frase que ele falou: “Façam o que vocês quiserem fazer, mas optem por aquilo que vocês fazem melhor e sejam incomparáveis”. O que eu faço melhor é cantar ou ser zootecnista? Juntei toda a história da música e das minhas origens, tracei todas essas influências, coisas que eu sempre gostei, e comecei a aprender viola caipira, a melhorar no violão e no canto. Além disso, tive a felicidade de conhecer pessoas maravilhosas que me ajudaram muito, como o Zé Paulo (Medeiros) e o (Sérgio) Turcão.

9) Desde o início você optou pelo gênero caipira?

Cláudio: Na verdade o “Alma Caipira” é uma homenagem, e de caipira eu só posso mesmo ter apenas a alma. As canções que eu componho são uma mescla do que eu sou. Nos tempos das cantorias em bares eu tocava MPB. Tocava Chico (Buarque) e Milton (Nascimento). Adoro o Boca Livre também. Acho maravilhosos os arranjos vocais deles. Tenho a impresssão de que minha música, minhas interpretações acabam sendo uma junção de tudo isso.